quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Menino de sua Mãe - Poema de Fernando Pessoa





No plano abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa, in 'Antologia Poética'


 

10 comentários:

  1. Um dos meus poemas favoritos.
    De uma beleza excepcional.

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  2. Uau! Que bonito! Amei

    Beijos e um excelente dia.

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  3. Um poema bem reflexivo Maria Rodrigues!
    Bjs-Carmen Lúcia.

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  4. Este poema já o declamei em público.
    É emotivo e muito belo.
    Beijinhos
    :)

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  5. María maravillosa poesía bien acompañada con esos magníficos cuadros.

    Saludos.

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  6. Fernando Pessoa grande poeta! Retrata a vida miserável desse menino e sua mãe de forma bela, Parabéns pela partilha. Bela escolha amiga. Abraços com desejos de uma noite de paz.

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  7. Um poema emotivo, um pouco triste, mas dito de um jeito tão poético que o torna especial.
    Beijos.

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  8. Una forma de ver la vida
    y denunciar su esencia donde es necesario.

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“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery).

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