sábado, 12 de junho de 2010

Poema da árvore - António Gedeão


As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.

António Gedeão


8 comentários:

  1. Um dos lindos poemas de António Gedeão.

    "O ideal deve, como a árvore, ter as suas raízes na terra ."

    Beijo.

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  2. Que poema mais rico em sentimentos...lindo!
    A imagem maravilhou meus olhos amiga!

    Ótimo final de semana pra ti!
    Beijos...
    Valéria

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  3. Maria, quero agradecer tua visita.
    DEIXO ESSA POESIA, QUE JUSTAMENTE FALA SOBRE ELA, A ÁRVORE

    Toda vez que vejo uma árvore derribada
    Nos terrenos das construções
    Penso na loucura dos homens
    Na insanidade absurda
    Que nasce nos corações

    Penso na ganância
    Que corrompe e solapa
    Não se preocupando
    Com o futuro dessa raça

    Mas penso na própria árvore
    Que indefesa contra o nefasto
    É sacrificada e morta,
    E trocada pelo aço

    Por algumas somas de dinheiro
    Pra ser arrancada
    E mais tarde transformada
    Numa cruz e numa estaca

    Crucificando e transformando
    Toda terra num deserto
    Sepultando a ESPERANÇA,
    Desse ÉDEN que nos resta!


    BEIJOS

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  4. António Gedeão, o homem que escreveu "Pedra Filosofal", é um dos meus poetas favoritos. O poema é magnífico e a imagem é belíssima...
    Só que... então os passarinhos que chilreiam nas árvores e à noite nelas se acoitam, não são uma bela e harmoniosa companhia???
    bjis
    J

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  5. Olá querida
    Belo poema, também gostei da imagem a arvore é linda.
    Com muito carinho BJS.

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  6. Saudade, Maria!

    Lindo poema.

    Essa beleza da árvore que não está no que vemos, mas no que ela representa, nos leva a refletir que ninguém está só, porque sempre embaixo de alguma árvore, alguém descansa em sua sombra. alguém balança em seus galhos ou até sobe neles para ter uma visão de tudo. Lá também, os pássaros cantam em grupos e fazem ninhos. Borboletas enfeitam o verde, enquanto paramos para ouvir o vento sussurrando entre as folhas, numa melodia de aconchego que nos embala e nos leva para longe de tudo que nos incomoda, dando-nos paz.

    Um grande beijo e obrigada pelo carinho.

    Chris Amag

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  7. Foi a 1ª vez que aqui entrei.
    Se gostei da 1ª parte falando sobre Aveiro que conheço bem pois lá tenho familiares e amigos, não é menos verdade que tudo, mas mesmo tudo neste blog me agradou. Desde a prosa, a poesia e as imagens plenas de simbologia, tudo, mas mesmo tudo me agradou.

    Vou linkar este blog no meu blog de Avó e voltar sempre que perceber novidades.

    Parabéns!
    És linda por dentro e por fora.

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