terça-feira, 13 de julho de 2010

Poema da Malta das Naus - António Gedeão


Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

António Gedeão



3 comentários:

  1. Olá Maria!
    Linda postagem!!!! Com um belo poema de António Gedeão...Parabéns pela escolha!!!

    Beijinhos de carinho e amizade,
    Lourenço

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  2. Minha querida Maria, Portugal sempre nos remete ao mar, a coragem dos marinheiros que desbravaram mares bravios sem nenhuma tecnologia, e adicionando novos territórios a Portugal. Lindo Poema....Beijocas

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  3. Muito belo poema, eu estava a ouvir na voz de Katia Guerreiro....e fique impresionado e agora mais, é mais grande e com a maravilhosa letra....falo pouco portuguez e estou a gostar demais...

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“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery).

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