sábado, 14 de maio de 2016

Eis a Casa - Poema de Cecília Meireles



Eis a casa
menos que ar
imponderável,
no entanto é branca de camélia
e tem perfume de cal

Com seus corredores

O alpendre

As janelas uma a uma

Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando
O gasómetro

Vêm-se as árvores por cima com suas flores

A casa imponderável

Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro

A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz

A água a pingar cheira a musgo,
soa metálica, trémula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe

Peitoris gastos de braços antigos
Sombras de borboletas

Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas

Passam legiões de formigas pelos patamares

Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu

Eu sei quem não pôde viver na casa

É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores
varandas
aposentos
alvenaria
muros

imponderável.

Uma casa qualquer.
Cruz que se carrega.
Imponderavelmente, para sempre, às costas.


Cecília Meireles


6 comentários:

  1. Um excelente poema, como todos que Cecília Meireles escreveu.
    Uma das minhas poetizas preferidas, a par da Sophia de Mello Breyner
    Um abraço e bom fim de semana

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  2. Bom dia
    Maravilhosa escolha. Poema lindíssimo!

    Beijo, bom sábado!
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  3. Maria
    Lindíssimo, congruente e bem ritmado poema de Cicilia Meireles. Na verdade, uma casa cuja situação tenha todos os atributos mencionados, só sendo "casa às costas".
    Beijinhos

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  4. Ai que coisa mais linda de se ler...e que imagem...poxa, me encantei lendo e relendo! Maria, eu adoro Cecília Meireles e te agradeço e parabenizo pela magnífica publicação!!! um abraço com desejos de um domingo muito lindinho prá ti!!!

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  5. Muito bonito.
    um beijinho e um bom Domingo
    Gábi

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  6. Sempre maravilhoso, descobrir mais um pouco de Cecília Meireles...
    Beleza e delicadeza... sempre num estilo de escrita, inconfundível...
    Beijinhos
    Ana

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