domingo, 27 de outubro de 2013

Balada - Poema de José Saramago



Dei a volta ao continente
Sem sair deste lugar
Interroguei toda a gente
Como o cego ou o demente
Cuja sina é perguntar


Ninguém me soube dizer
Onde estavas e vivias
(Já cansados de esquecer
Só vivos para morrer
Perdiam a conta aos dias)


Puxei da minha viola
Na soleira me sentei
Com a gamela da esmola
Com pão duro na sacola
Desiludido cantei


Talvez dissesse romanças
Ou cantigas de encantar
Aprendidas nas andanças
Das poucas aventuranças
De quem não soube esperar


Andavam longe os teus passos
Nem as cantigas ouviste
Vivias presa nos laços
Que faziam outros braços
No teu corpo que despiste


Quanto tempo ali fiquei
Sangrando os dedos nas cordas
Quantos arrancos soltei
Nesta fome que criei
Nem eu sei nem tu recordas
Porque nunca tos contei


Até que um dia cansaste
(Era pó não era monte)
Outra lembrança deixaste
E nas águas desta fonte
A tua sede mataste
— O arco da minha ponte 


José Saramago




5 comentários:

  1. Um belo poema. Sabe que só depois da morte de Saramago soube que ele tinha escrito um livro de poemas?
    Um abraço e uma boa semana

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  2. Muito bem escolhido! Lindo! beijos,ótima semana!chica

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  3. Bom dia Querida amiga Maria que poema mais lindo suave e terno é uma canção de amor linda semana para voce amiga um abraço com carinho marlene

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  4. Um lindo poema, uma bela escolha.
    Beijinhos e boa semana Maria

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“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery).

Obrigado pela sua visita e pelo carinho que demonstrou, ao dispensar um pouco do seu tempo, deixando aqui no meu humilde cantinho, um pouco de si através da sua mensagem.

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