quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Passaro azul - Poema de Fernanda de Castro


(Ai, o Pássaro Azul da minha pena, da minha pena, pena, pena…)

Eu tinha um Pássaro Azul,
Azul como o azul do arco-íris.
Não vivia numa floresta,
não morava numa gaiola.
Não era um pássaro de penas e de sangue.
Também não era um pássaro pintado.
Nem escrito. Nem pensado.




Era um pássaro sentido.
Sentido como os cegos vêem as cores,
como os surdos ouvem os sons.
Era demasiado pequeno para os dedos
mas podia encher uma alma.




O Pássaro Azul cantava,
mas a sua música
era uma grande alegria sem risos,
uma grande luz sem noite.
Em quase todas as casas havia silêncio
e o Pássaro Azul cantava.




Porque não havia em todas as casas
uma flor, uma estrela, um pássaro a cantar?
Não abri a porta da gaiola
porque não havia gaiola,
mas com mãos trémulas de esperança
fui buscar o Pássaro Azul
ao fundo da alma,
e abri as mãos
para que houvesse em todas as casas
uma flor, uma estrela, um pássaro a cantar.




Murcharam, porém, todas as flores,
apagaram-se todas as estrelas,
e o Pássaro Azul,
azul como o azul do arco-íris,
ficou frio e cinzento,
um Pássaro Cinzento
como um pássaro de lua.




Então as mãos,
aquelas mãos trémulas de esperança,
tomaram a forma de tépidas conchas,
de pequenos ninhos de calor,
e o verde,
o verde indeciso das marés,
cobriu de esperança as suas penas.
Era agora um Pássaro Verde,
verde e triste.




Então lágrimas lentas o envolveram,
pesada chuva de alma,
e o pássaro ficou branco.




Era agora um Pássaro Branco,
silencioso e triste.
Como um vento furioso,
a Ira sacudiu as raízes da alma,
da alma onde outrora
morava o Pássaro Azul,
mas o Pássaro Branco
era agora vermelho,
um Pássaro Vermelho e assustado,
pesado de solidão.




Então o desespero murchou-lhe as asas,
e ficou roxo como um lírio magoado,
um lírio de paixão,
negro como um céu sem astros,
um Pássaro Negro
tocado de morte.




E de nada serviram as mãos
que se fizeram conchas para o abrigar,
de nada serviu a Esperança,
de nada serviram as lágrimas,
de nada serviu o vendaval da Ira,
nem o Desespero, nem a Dor.
Ferido de silêncio e de morte,
o Pássaro Azul
fechou para sempre as asas
e nunca mais foi azul.




Não, na Ilha do Tesoiro
e do Pássaro Azul
não estão as minhas asas,
não estão nenhumas asas,
ficaram só as penas…
As penas e um tesoiro
que escondi, não sei onde,
quando parti
para a minha viagem sem partida
e sem regresso.

Oh! A minha viagem,
esses longos caminhos da Aventura
que imaginei, imóvel,
no quarto, a horas mortas.
Era tudo miragem,
silêncio, noite escura:
um mar de ondas paradas,
um chão de pedras soltas,
de plantas calcinadas…
Constelações de nuvens,
jardins de campas rasas,
florestas de silêncio,
sem frutos e sem asas.




Então vieste com teu passo lento,
com tuas mãos de flor
e teu sorriso breve,
então vieste, branca e alada,
pura e alada,
numa noite de tédio e nostalgia.
Não perguntaste,
não disseste nada,
mas eras a Poesia,
mas eras tu, Poesia,
meu tesoiro perdido,
meu tesoiro encontrado,
reencontrado.


A Ilha do Tesoiro,
a minha Ilha…

Porque eu tinha uma Ilha,
num continente sem limites
que nenhum mar banhava.
Era a Ilha da Seta,
da metade ascendente
do meu signo de Fogo, o Sagitário,
que não era de terra nem de lava
mas dum estranho calcário,
imponderável, fluido,
inconsistente.
Era a Ilha do mar inexistente,
do céu imaginário,
que julguei povoar de Sonho, de Ilusão,
e afinal povoei
de bolas de sabão.

É a Ilha da grande Solidão…

Fernanda de Castro, in «A Ilha da Grande Solidão», 1962
Extraído de: Fundação António Quadros



"O pássaro é livre na prisão do ar. O espírito é livre na prisão do corpo." ( Carlos Drumond de Andrade )

17 comentários:

  1. Que poema soberbo. Encantei-me com a primazia os versos. Abra a janela do seu coração...
    E deixe entrar por ela tudo de mais lindo...
    Amor, paz, amizade, carinho, ternura e solidariedade.
    Tudo que faça você extremamente feliz.
    Deus te deu a vida... e sua vida tem que ser vivida sempre plena de felicidade.
    Que a sua noite seja mágica, recheada de intensos momentos de alegria e grande felicidade.
    Beijos no coração e muitos afagos na alma.
    Gracita

    ResponderEliminar
  2. Bom dia Maria, um poema muito belo, muito tocante de Fernanda de Castro, que mexe com muito do que sentimos, do que vivemos. Desejo que a luz do sol e a esperança morem sempre no seu lindo e enorme coração. Um grande beijinho. Ailime

    ResponderEliminar
  3. Lindo demais.Belíssimo compartilhamento! beijos,chica

    ResponderEliminar
  4. oi minha amiga,

    que lindos,
    adoro pássaros,
    mas gosto de ve-los livres,voando,soltos de qualquer viveiro ou gaiola...

    beijinhos

    ResponderEliminar
  5. Maria: Como fiquei encantado com este passaro azul Lindas imagens e lindo o texto ou poema do passara azul.
    Beijos
    Santa Cruz

    ResponderEliminar
  6. Maria, beijinhos...

    A Ilha da Grande Solidão, gostei de conhecer!
    Lindas fotos/imagens...
    Também achei linda a frase de Drumond: "O PÁSSARO É LIVRE NA PRISÃO DO AR. O ESPÍRITO É LIVRE NA PRISÃO DO CORPO."

    ResponderEliminar
  7. Bom dia amiga Maria que poema lindo falndo dos passaros de seu voo que muitas vezes lhe é roubado por serem aprisionados no egoismo do ser humano que o priva da liberdade lindo poema amiga parabens por sua escolha impecavel grande abraço bjs marlene

    ResponderEliminar
  8. Que lindooooooooo, menina! Se toda alma fosse livre, imagino que seria como essa publicação de hoje.

    ResponderEliminar
  9. Oi Maria!
    Que post L I N D O!!!!!!!

    Lindo... e mais nada a comentar.

    Abração
    Jan

    ResponderEliminar
  10. Adorei as fotografias dos passarinhos azuis,são bastante bonitos. A poesia e a história estão muito bem contadas. Beijinhos e que tenhas um fim-de-semana super encantador!! http://pontodecruzdamafalda.blogspot.pt

    ResponderEliminar

  11. Querida Maria

    Este poema parece o percurso de uma vida, com momentos belos e momentos tristes, por vezes a redenção e por fim, talvez, uma certa decepção e conformismo. Um poema belíssimo de Fernanda de Castro que nos desnuda a alma.

    Beijinhos

    Olinda

    ResponderEliminar
  12. Belo o poema de Fernanda de Castro.
    E muito conseguida a tua interpretação através destas belas aves.
    Gostei muito, Maria.

    ResponderEliminar
  13. amei esse post. Parabéns.

    ResponderEliminar
  14. Maria minha doce amiga, que adoravél poema e tão maravilhosamente ilustrado quanta ternura, quanta sensibilidade, para postar autores que quase nem ouvimos falar e você meu amor lá os vai tirar do fundo do baú e dar-lhes a luz do sol e dos olhos arregalados que por aqui passam. Uns com marcas, outros sem... mas que de certo que todos ficaram maravilhados com tanto carinho aqui depositado.
    Amiga linda... tenha muito amor, muita paz, e muita súde em sua vida. Obrigado por este lindo momento.
    Beijinhos de luz para todos... mesmo todos.

    ResponderEliminar
  15. A natureza em todo o seu esplendor, quanta beleza!
    Bom fim de semana, e um grande abraço.

    ResponderEliminar
  16. Procure um lugar próximo à janela
    desfrute cada uma das paisagens
    que o tempo lhe oferecer,
    com o prazer de quem realiza a primeira viagem.
    Não se assuste com os abismos,
    nem com as curvas que não lhe
    deixam ver os caminhos que estão por vir.
    Procure curtir a viagem da vida,
    observando cada arbusto, cada riacho,
    beirais de estrada e
    tons mutantes de paisagem.
    Preste atenção em cada ponto de parada,
    e fique atento ao apito da partida.
    E quando decidir descer na estação
    onde a esperança lhe acenou,
    não hesite.
    Desembarque nela os seus sonhos.
    De aquele abraço apertado nesse Dia Dos Pais ,
    Que espera você na última estação .
    Caso seu pai não esteja a sua espera
    muitos pais estão a espera dos filhos.
    De aquele abraço com um largo sorriso
    o importante é saber , que nesse Domingo
    esteja feliz seja como filha , filho
    ou pai.
    Um abraço e um beijo carinhoso.
    Que seja eterna nossa amizade.
    Caso gostar na postagem
    deixei um mimo para você.
    No Domingo Realizarei o sorteio do livro.
    A venda também na Rede Ponto Frio.
    Para presentear seu Pai.
    Me prometa ser Feliz .
    Evanir S Garcia.
    Amada tem surpresa na postagem veja se gosta.

    ResponderEliminar
  17. www.fernanda-decastro.blogspot.com

    ResponderEliminar

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery).

Obrigado pela sua visita e pelo carinho que demonstrou, ao dispensar um pouco do seu tempo, deixando aqui no meu humilde cantinho, um pouco de si através da sua mensagem.