terça-feira, 1 de novembro de 2016

O Monstrengo - Poema de Fernando Pessoa





O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»


Fernando Pessoa


14 comentários:

  1. É sempre um privilégio ler Fernando Pessoa.
    Um abraço e bom feriado

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  2. Pessoa sempre Pessoa!Ótimo NOVEMBRO! bjs, chica

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  3. Que as dificuldades e os medos se transformem em esperança a cada momento da nossa vida ,beijinhos feliz terça-feira querida amiga

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  4. Bom dia, minha amiga
    Adoro este poema!!!
    Conhece-o declamado pelo saudoso João Villaret? É fabuloso!
    Se não conhece e quiser eu posso mandar-lho, pois tenho-o gravado. Aliás, há anos publiquei-o no meu blog LÍRIOS.

    Um excelente feriado para si e sua linda família.

    Votos de uma semana muito feliz.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  5. Um poema de Fernando Pessoa que remete à coragem dos portugueses frente às adversidades do mar.
    "Aqui ao leme sou mais do que eu:
    Sou um Povo que quer o mar que é teu;"
    Uma voz a expulsar o "Monstrengo" e a afirmar a missão do povo português a defender a pátria, tendo o homem do leme a fazer esta representação.
    Numa simbologia atual o monstrengo seriam os nossos medos interiores, ânsias e angústias a nos assolar a alma, competindo a nós, senhores do nosso destino, nos livrar através da coragem desses temores que podem ou não ser infundados, para então seguir com a nossa missão neste mundo.
    Maria, tentei rudemente expressar o que pude apreender deste poema épico de Pessoa. Tu fizeste uma excelente postagem, querida amiga, a nos ensejar reflexões e a apreciar, mais uma vez, este excelente poeta/escritor/filósofo/jornalista... E tantas outras denominações que tornaram este gênio da palavra um ícone de proporções tamanhas que a seu respeito assim se expressou o poeta e crítico brasileiro Frederico Barbosa: “Fernando Pessoa foi o enigma em pessoa".
    Que as horas dos teus dias cheguem trazendo alegrias e paz, ensejando a realização de todos os teus projetos e sonhos.
    Um beijo no teu coração, com meu carinho.
    Leninha

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  6. Soberbo poema!Amei

    Beijo
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  7. Amiga Maria amo a poesia, de modo geral, entretanto, três poetas sobressaem na minha admiração: Fernando Pessoa, Mario Quintana e Jorge Luis Borges. Minha admiração por Pessoa e Quintana é muito forte, quase uma paranoia.
    Um abraço. Tenhas uma boa tarde.

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  8. Poema lindo! Mostra força e convicção. Muita paz!

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  9. Oi Maria!
    Fernando Pessoa foi um gênio. Já li a biografia dele e adorei conhecer essa pessoa tão especial.
    Bjsss amiga

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  10. Olá Maria
    Muita força e com fundo engraçado este poema de tão grande
    poeta.
    Bjs
    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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  11. Boa noite, querida Maria!
    Poema lindo, Pessoa é simplesmente eterno!

    Beijinhos, abençoado Novembro! ♥

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  12. Bonito poema María. Fernando Pessoa es un gran poeta, sin duda.
    Mil besos y que tengas una estupenda semana :)

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  13. Mais uma incrível descoberta, por aqui...
    Acho que nunca tinha ouvido falar deste poema de Pessoa!
    Sempre a surpreender e a encantar-nos a todos, com as suas escolhas brilhantes, Maria!
    Beijinhos
    Ana

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