terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Viagem - Poema de Cecilia Meireles





No perfume dos meus dedos,
há um gosto de sofrimento,
como o sangue dos segredos
no gume do pensamento.

Por onde é que vou?

Fechei as portas sozinha.
Custaram tanto a rodar!
Se chamasse, ninguém vinha.
Para que se há de chamar?

Que caminho estranho!

Eras coisa tão sem forma,
tão sem tempo, tão sem nada...
- arco-íris do meu dilúvio!-
que nem podias ser vista
nem quase mesmo pensada.

Ninguém mais caminha?

A noite bebeu-te as cores
para pintar as estrelas.
Desde então, que é dos meus olhos?
Voaram de mim para as nuvens,
com redes para prendê-las.

Quem te alcançará?

Dentro da noite mais densa,
navegarei sem rumores,
seguindo por onde fores
como um sonho que se pensa.

Por onde é que vou?

Cecília Meireles, in “Poesia Completa”





5 comentários:

  1. E hoje eu viajo por aqui, encontrando a nossa Cacília, tornando o meu dia mais e feliz, na viagem de volta! Feliz 2016, Maria, junto aos seus!

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  2. A Cecilia Meireles é sublime, uma Poeta (ela não gostava de ser chamada de poetisa)
    grandiosa, para mim, um estrela maior da Poesia!...
    Adoro tudo que ela escreveu e grata pela preciosa partilha!!
    2016 luminoso (feliz), renovador e poético!!
    Beijinho, Maria.

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  3. Cecília é uma de minhas autoras prediletas. Obrigada por compartilhar,
    Maria.
    Bom 2016!

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  4. Mais um belíssimo e delicado poema de Cecília... onde a sensibilidade impera!
    Adorei! Bjs
    Ana

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“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery).

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