domingo, 26 de abril de 2015

Não sei quantas almas tenho - Poema de Fernando Pessoa





Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que só gue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa


3 comentários:

  1. Sem palavras, lindo de mais!

    Beijinho e uma semana feliz

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  2. lindo que só...Mas bem confusos são os poetas. Parecem todos mal amados.

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  3. Um grande poema!!! "Sou minha própria paisagem"
    "Assisto à minha passagem".
    Tão lindo isso.
    Um abraço.

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“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery).

Obrigado pela sua visita e pelo carinho que demonstrou, ao dispensar um pouco do seu tempo, deixando aqui no meu humilde cantinho, um pouco de si através da sua mensagem.