terça-feira, 7 de outubro de 2014

Queixa das almas jovens censuradas



Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.



Natália Correia


8 comentários:

  1. Um poema de que muito gosto e um dos primeiros que postei no "A mulher e a poesia"
    Um abraço

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  2. Grande poetisa!!!
    Não conhecia e adorei!
    Bj amigo

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  3. Um poema com a alma e as palavras de Natália Correia.
    Cada dia as suas palavras assentam mais profundamente nesta politica educativa.

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  4. Não é vida nem a morte pois ela é eterna , lindo poema.
    beijinhos


    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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  5. Olá querida, passei por aqui para agradecer sua doce presença
    no meu cantinho.
    TALENTO MARAVILHOSO...LINDO POEMA!
    Abraços, Marie.

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  6. Oi Maria,

    que delícia de poema, viajei com ele.

    Bejim.

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