domingo, 28 de outubro de 2012

O Livro da Vida


Foto: deviantart_Helle
Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia...
— Lia o «Livro da Vida» — herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça,—
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

Cada página abrange um estádio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;
Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,
Nem a neve do Inverno a pratear-lhe os cabelos!

Só depois de voltada a folha derradeira,
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
A luz que iluminou todo o caminho andado..

Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,
Amor, vozes do Lar, estos do Sentimento,
— Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

Mas então, lamentando o seu estéril zelo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
Sobre ele, para sempre, os seus olhos cerrou...

António Feijó



13 comentários:

  1. A imegem é um encanto!

    E quanto ao poema , foi agradável relembrar Feijó...

    Bons sonhos, amiga.

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  2. Precioso y lindo versos.
    Sakudos abrazos y buen fin de semana

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  3. oi Maria,

    você escolhe sempre tudo tão bem,
    saio daqui sempre muito melhor do que cheguei,
    adorei o poema...

    beijinhos

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  4. Maria, Um Bom Domingo Para Você e Família...
    Um Poema muito precioso para ler e refletir! O Livro da Vida é Um Tesouro!...
    Beijinhosss...

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  5. Minha querida.
    Sem querer sair fora do foco de teu post, que é deveras lindo, e lindo poema, quero dizer para si que também escrevi um poema chamado Livro da Vida.
    Este do António Feijó, que termino de ler, é lindo, é apoteótico e para mim transcendeu!
    Amiga Maria, como é lindo o idioma português, seja ele lusitano ou brasileiro, pois as palavras adentram n'alma como uma espada de dois fios, a dissipar trevas, atingindo coração, mente, espírito!
    Hoje, um fraterno abraço, minha estima e um beijo.

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  6. O livro da vida!!! Quantas vezes lido com pressa, passando folhas só com uma vista d'olhos...algumas até sem sequer vermos de que trata. Por que será que só quando chegamos à ultima folha nos deparamos com a asneira que fizemos? Porque não lemos cada página
    ... devagarinho, linha a linha, palavra a palavra até entendermos tudo? Quanta coisa nos passou sem que percebessemos o significado, quanta palavra...quanta frase sem conseguirmos interpretar. Agora que o livro chegou ao fim dá vontade de o recomeçar a ler; se tivessemos essa oportunidade com certeza a leitura seria outra; mas...acabou o livro...acabou o caminho...acabou a oportunidade que a vida nos deu. Muito lindo, Maria. Obrigada pela partilha. Fique bem e que no seu livro apareçam palavras simples...agradáveis e que...quando aparecer uma mais complicada consiga debruçar-se sobre ela e entender o seu significado. Beijinho
    Emília

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  7. Devagar vou, como que, "folheando" cada "página" teste "livro" que é o Divagar sobre tudo um pouco. Cheguei ao extraordinário Livro da Vida, com versos que encerram tantas verdades, depois de ler, em páginas anteriores, a Humildade de Cora Coralina, No Coração do Sonho Acordado, de Cecília Meireles e o texto Acredito nas Pessoas, de Bruno Angelis. Dos quatro, conhecia as duas poetisas brasileiras. António Feijó e Bruno Angelis eram desconhecidos, para mim. Gostei deveras, Maria...Obrigada, por eu poder divagar...por este espaço tão acolhedor.

    Bom domingo!

    Um abraço,
    da Lúcia

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  8. é pena que não vamos relendo o livro da vida e só guardemos para o fazer depois de perecer
    beijinhos

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  9. Olá, querida Maria
    Incrível!!
    O livro da vida é editado ao fim da etapa final do nosso viver... E como ele tem plenitude e fundamento ao folheá-lo no final!!!
    Bjs de paz

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  10. Magnífica escolha poética.
    Há quanto tempo não lia o António Feijó...
    A escolha do foto é muito feliz.
    Maria, querida amiga, tem uma boa semana.
    Beijo.

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  11. Oi querida Maria , vim agradecer a visita, e me deparo com esta poesia linda!realmente pode ser chamado o livro da vida, graças aos conhecimentos passados para todos. se seguíssimos o mundo seria muito melhor. Um abraço carinhoso. Celina

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  12. Minha querida, sabedoria e encanto no belo poema de Antonio Feijó.Parabéns por esta belíssima escolha.
    Lindíssima reflexão podemos fazer ao ler este poema.
    Brisas e muitas flores para você bela amiga.Bjs Eloah

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  13. Olá Maria:
    Assim somos!! É como se estivéssemos anestesiados, pela pressa, pelos problemas, pela necessidade de vencer obstáculos que nem sempre existem, nós é que os criamos.Não percebemos e nem damos importância às pequenas coisas que geralmente são as mais importantes e belas.
    Hoje já cansada da luta do dia (apesar de ser domingo), sentei-me em frente à janela para esticar as pernas e a coluna tão doída, e ali fiquei admirando a silhueta da montanha com um céu muito azul como fundo. O descanso durou por uns trinta minutos no máximo, entretanto toda aquela exuberância e beleza da mãe natureza trouxeram-me um enorme descanso, resolvi então deixar para outro dia a “tal luta” que vinha travando e me estafando. Coloquei um noturno de Chopin à tocar e voltei a resfestelar-me na poltrona e valorizar aquela beleza que me estava sendo oferecida pela vida por Deus.
    Há algum tempo venho usando esta tática, pois meu marido diz que sou viciada em trabalho, e as consequências deste vicio estão me trazendo dores físicas e perdas irrecuperáveis de viver o bom da vida o mel.Estou aprendendo a me controlar, largar tudo e viver o momento que se apresenta com doçura.
    Este lindo poema vem justa e coincidentemente, para mim, tratar disto.
    Você sempre nos oferece belas poesias ou informações maravilhosas, só posso agradecer ter você uma pessoa tão sensível como amiga.
    Boa semana.
    Beijos,
    Léah
    .

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