sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Quase - Poema de Mário de Sá-Carneiro




Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão...Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh' alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que bebi mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá-Carneiro




12 comentários:

  1. Adorei...Pesquisarei para mim....
    Beijo

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  2. Muito lindo esse poema Maria!.. Adorei!!!

    Um grande beijo em seu coração..
    Verinha

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  3. Já "devorei" a antologia poética desse grande autor.

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  4. Minha querida amiga, sabes que um de meus poetas portugueses prediletos é Mário de Sá Carneiro?
    Hoje estou homenageando Augusto dos Anjos, mas já dediquei um para Mário.
    Deixo portanto para minha distinta amiga, esse tributo a ele, com quem tanto me identifico.

    Mário de Sá Carneiro – 1890-1916

    Minha alma silenciosa vê tua fotografia...
    Senti uma dor, tão estranha e piedosa,
    De sentimentos ocultos que eu nutria;
    Por tua vida de tormento, fatalista ansiosa...

    Em teu rosto sereno, delineado em tristeza,
    Minh’alma se derrama daquilo que sentia
    E tanta compaixão por ti, de uma pureza,
    Ao me envolver em doce e sutil melancolia...

    Dar-lhe-ia beijos em teu rosto, de amor angélico
    Com o mais profundo amor de um irmão,
    Com sentimentos embalados por singela poesia...

    Mas tua presença, em meu coração me basta
    Que na tua ausência, do poema leio, pressinto
    E uma saudade, que me prende e me arrasta...

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  5. Boa noite, Maria!
    Gosto muito desse poeta e desse poema também.
    Aproveito para te desejar um excelente final de semana.
    Beijo,
    Mara

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  6. quase...encontramos a vida e quase a perdemos,nessa dualidade continua que se chama viver
    bjs

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  7. Lindo querida!Que escritor especial trazes até nós.Encantei minha alma.Amei!Bom final de semana com muita luz e paz no coração.Bjs Eloah

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  8. Maria querida amiga
    Amei, amei!!! Obrigado amiga, pois eu adoro os poema de Mário ´de Sá Carneiro.
    Beijinho muito grande

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  9. Oi Maria.
    Que lindo este poema, não conhecia este autor,um grande poeta. Vim desejar pra você um lindo fds, bjs, Ieda.

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  10. Oi Maria,
    Linda a sua escolha! Poema e fotografia:
    "o sol em brasa, além do azul"
    Bjs.

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  11. Um poema poderoso de um poeta extraordinário, que é Mário Sá-Carneiro. O golpe de asa que nos falta e nos obriga a dizer:Se ao menos eu permanecesse aquém...Um quase arrependimento de termos tentado.Mas aqui entra o factor 'tempo' que entra no seu último post. O que não é tentado ou feito em tempo útil nunca mais se recupera.

    Beijos

    Olinda

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  12. Maria
    Super interessante, há dois dias postei sobre a importância do tempo. Só que com uma diferença: suas fotos são simplesmente maravilhosas, minha amiga. Beijos com muito carinho!

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“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” (Antoine de Saint-Exupery).

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